O jornalismo em Angola vive hoje um paradoxo preocupante: nunca se formaram tantos profissionais na área, mas nunca foi tão difícil entrar no mercado de trabalho. Os recém-formados enfrentam um sistema praticamente fechado, onde o mérito muitas vezes cede lugar ao amiguismo, à influência e, em casos mais graves, à corrupção. O sonho de exercer a profissão transforma-se, para muitos, numa frustração constante.
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| © Jornalista multimédia - Mido dos Santos |
Nas redações da imprensa escrita, nas rádios e, de forma ainda mais evidente, nas televisões, as oportunidades são escassas. O acesso às estações públicas, que deveria ser feito por meio de concursos transparentes, é frequentemente visto como limitado ou inexistente. Isso levanta sérias dúvidas sobre a igualdade de oportunidades e a credibilidade das instituições responsáveis por garantir o acesso justo ao emprego.
No setor privado, o cenário não é muito diferente. O chamado “amiguismo” continua a ser uma porta de entrada privilegiada. Para muitos homens, ter uma ligação influente pode ser o único caminho. Para as mulheres, a realidade pode ser ainda mais dura e, por vezes, degradante, com denúncias recorrentes de exigências inaceitáveis, como o chamado “teste de sofá”. Trata-se de uma prática que, além de imoral, representa uma grave violação da dignidade humana e dos princípios éticos da profissão.
É importante reconhecer que há exceções. Existem profissionais que conseguiram o seu espaço com base no talento, esforço e competência. No entanto, estes casos parecem ser a exceção, não a regra. A percepção dominante entre os jovens jornalistas é de que o sistema não valoriza o mérito como deveria.
Essa falta de abertura tem consequências diretas na qualidade da informação. Sem oportunidades nos meios tradicionais, muitos recém-formados recorrem à criação de plataformas digitais próprias. Embora isso demonstre iniciativa e adaptação aos novos tempos, também abre espaço para a proliferação de conteúdos sem o devido rigor jornalístico. A ausência de orientação, experiência prática e supervisão contribui para o aumento da desinformação e das chamadas “fake news”, especialmente nas redes sociais.
O resultado é um ciclo preocupante: profissionais qualificados sem espaço, informação sem qualidade e uma sociedade cada vez mais exposta a conteúdos duvidosos. O jornalismo, que deveria ser um pilar da democracia, corre o risco de se fragilizar ainda mais.
É urgente repensar este modelo. As instituições públicas devem promover concursos transparentes e regulares, garantindo igualdade de oportunidades. Os órgãos privados precisam valorizar o mérito e criar programas de integração para novos talentos. E os profissionais já estabelecidos têm a responsabilidade de abrir portas, orientar e contribuir para o crescimento da nova geração.
Se nada for feito, Angola continuará a desperdiçar talento e a comprometer o futuro do seu jornalismo. Afinal, sem oportunidades justas, não há imprensa forte. E sem uma imprensa forte, não há sociedade bem informada.