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sábado, abril 04, 2026

Opinião: O vício do copiar e colar no jornalismo angolano

O problema não é o jornalismo angolano.

O problema é o comportamento de alguns jornalistas angolanos.

Há quem já não vá ao campo. Não porque não haja histórias, mas porque dá menos trabalho copiar. Sentem-se mais confortáveis a replicar textos de sites terceiros do que a enfrentar a poeira das ruas, as fontes difíceis, os “não posso falar” e os riscos reais da apuração.

© Jornalista multimédia Mido dos Santos lança fio de reflexão ao jornalistas

O campo cansa.

O copiar e colar rende cliques.

Alguns transformaram o jornalismo num jogo de velocidade: quem publica primeiro, mesmo sem confirmar, mesmo sem estar lá. Mudam títulos, cortam parágrafos, apagam assinaturas alheias e chamam isso de produção própria. Não é. É preguiça embrulhada em pressa.

O comportamento repete-se: pouca verificação, nenhuma fonte no local e zero responsabilidade sobre o impacto da informação.

Depois reclamam da falta de credibilidade da classe.

Mas credibilidade não se pede — constrói-se.

E constrói-se no campo, ouvindo pessoas reais, vendo com os próprios olhos, errando e corrigindo quando necessário.

Felizmente, nem todos são assim. Ainda há jornalistas angolanos que saem, apuram, questionam e resistem. São esses que mantêm o jornalismo de pé, mesmo quando o chão treme.

Criticar este comportamento não é atacar a classe.

É tentar salvá-la.

Porque quando o jornalista abandona o campo, o jornalismo perde a alma — e passa a viver apenas de cópias.

Jornalismo angolano: entre o talento ignorado e o sistema fechado

O jornalismo em Angola vive hoje um paradoxo preocupante: nunca se formaram tantos profissionais na área, mas nunca foi tão difícil entrar no mercado de trabalho. Os recém-formados enfrentam um sistema praticamente fechado, onde o mérito muitas vezes cede lugar ao amiguismo, à influência e, em casos mais graves, à corrupção. O sonho de exercer a profissão transforma-se, para muitos, numa frustração constante.
© Jornalista multimédia - Mido dos Santos 

Nas redações da imprensa escrita, nas rádios e, de forma ainda mais evidente, nas televisões, as oportunidades são escassas. O acesso às estações públicas, que deveria ser feito por meio de concursos transparentes, é frequentemente visto como limitado ou inexistente. Isso levanta sérias dúvidas sobre a igualdade de oportunidades e a credibilidade das instituições responsáveis por garantir o acesso justo ao emprego.

No setor privado, o cenário não é muito diferente. O chamado “amiguismo” continua a ser uma porta de entrada privilegiada. Para muitos homens, ter uma ligação influente pode ser o único caminho. Para as mulheres, a realidade pode ser ainda mais dura e, por vezes, degradante, com denúncias recorrentes de exigências inaceitáveis, como o chamado “teste de sofá”. Trata-se de uma prática que, além de imoral, representa uma grave violação da dignidade humana e dos princípios éticos da profissão.

É importante reconhecer que há exceções. Existem profissionais que conseguiram o seu espaço com base no talento, esforço e competência. No entanto, estes casos parecem ser a exceção, não a regra. A percepção dominante entre os jovens jornalistas é de que o sistema não valoriza o mérito como deveria.

Essa falta de abertura tem consequências diretas na qualidade da informação. Sem oportunidades nos meios tradicionais, muitos recém-formados recorrem à criação de plataformas digitais próprias. Embora isso demonstre iniciativa e adaptação aos novos tempos, também abre espaço para a proliferação de conteúdos sem o devido rigor jornalístico. A ausência de orientação, experiência prática e supervisão contribui para o aumento da desinformação e das chamadas “fake news”, especialmente nas redes sociais.

O resultado é um ciclo preocupante: profissionais qualificados sem espaço, informação sem qualidade e uma sociedade cada vez mais exposta a conteúdos duvidosos. O jornalismo, que deveria ser um pilar da democracia, corre o risco de se fragilizar ainda mais.

É urgente repensar este modelo. As instituições públicas devem promover concursos transparentes e regulares, garantindo igualdade de oportunidades. Os órgãos privados precisam valorizar o mérito e criar programas de integração para novos talentos. E os profissionais já estabelecidos têm a responsabilidade de abrir portas, orientar e contribuir para o crescimento da nova geração.

Se nada for feito, Angola continuará a desperdiçar talento e a comprometer o futuro do seu jornalismo. Afinal, sem oportunidades justas, não há imprensa forte. E sem uma imprensa forte, não há sociedade bem informada.

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